Lilia Schwarcz
Carlos Starling
O TEMPO SEM TEMPO
53 crônicas da Pandemia
As crônicas de Carlos Starling, gradualmente, converteram-se em marca do tempo sem tempo, do tempo espiralado de uma doença coletiva como a Covid-19, que teve a potencialidade de fazer tudo parar. (Lilia Schwarcz)
O TEMPO
SEM TEMPO
POR
Lilia Schwarcz
De 1º de fevereiro de 2020 a 6 de maio de 2023, o médico Carlos Starling acompanhou, por meio de sua coluna no Estado de Minas, o dia a dia, pesado, inseguro, da pandemia de covid-19.
O relato presente no conjunto dos textos revela um profissional da saúde comprometido com sua tarefa de bem informar a população, mas, ao mesmo tempo, humano e sensível nas suas reações frente à dor e ao infortúnio que se abateram sobre nós durante esse prolongado período de reclusão e de isolamento social.
As crônicas de Starling, gradualmente, converteram-se em marca do tempo sem tempo, do tempo espiralado de uma doença coletiva como a covid-19, que teve a potencialidade de fazer tudo parar.
Atento, o médico anota e se pergunta sobre o momento histórico que nos foi dado viver, bem como registra seu espanto diante de um vírus que invadiu o planeta e transformou nossas vidas no espaço de uns poucos dias.
O profissional não se contenta em apenas comentar, e usa o espaço do jornal de maneira cidadã: informa sobre a doença, aconselha e conforta a população ansiosa com os rumos descontrolados da pandemia, oferece dicas de como higienizar as mãos e os alimentos, de como cuidar da saúde (a de cada um e a da coletividade), mas também brinca, solidariamente, diante dos desafios que uma emergência como essa traz. Linda a coluna que fala de amor nos tempos da covid. Nela, o médico humanista mostra como dialogam os terrenos do impossível com o possível. E sofre, junto aos seus leitores, diante do negacionismo e das omissões do governo Jair Bolsonaro, da demora da vacina, frente ao número impressionante de mortes que iam se avolumando; muitas delas na conta da falta de atitude por parte do Estado brasileiro.
Para não cair apenas nas estatísticas, cita nomes de vítimas da pandemia, de maneira a mostrar que, ao chorarmos por nossos mortos, estamos também velando a todos e a todas nós. É uma comunidade que sofre e que se consola, junta.
O nome da coluna do Dr. Carlos Starling deveria ser “Solidariedade”. Ou, então, “Bem comum”. Estes que são dois valores republicanos, que crescem, ainda mais, em momentos de infortúnio.
No Brasil, são vários os médicos que se tornaram intérpretes do país. O Dr. Starling é um deles.
Mas é ainda mais. Ele se converteu em testemunha; daquelas que, na tradição de Hannah Arendt, não sucumbem ao medo e ficam para contar. Para lembrar de não esquecer.
Não vamos esquecer…
Lilia Schwarcz
Setembro de 2023
SOBRE O AUTOR
Carlos Starling
É médico infectologista e especialista em Medicina Preventiva e Social pela Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), formado em 1982. Atualmente é membro consultor científico da Sociedade Brasileira de Infectologia (SBI) e vice-presidente da Sociedade Mineira de Infectologia (SMI), além de membro e parceiro científico das mais prestigiosas sociedades e instituições científicas mundiais.
Ao longo das últimas décadas, atuou ativamente no controle das epidemias de AIDS, febre amarela, dengue e H1N1, sendo uma fonte para a imprensa nacional para esclarecimentos sobre estes e outros graves problemas de saúde pública. Além da área científica, é autor de um livro de poesias, Guardanapos (2016), e colunista do jornal Estado de Minas, versão on-line, desde 2019.
PALAVRAS CARINHOSAS DE QUEM LEU
Com relação ao Dr. Carlos Starling, o “Pavão” para os íntimos, me interessa falar do invisível, do não dito, dos silêncios. Fiz com ele, durante quase dois anos, de segunda a 6ª-feira, o #15mindepapo, no Instagram. Nunca foram só 15 minutos – maioria das vezes, 20 ou 30 minutos, informação de conteúdo para aquele tempo sofrido da pandemia.
Da ordem do invisível, as rondas diárias nos hospitais, atendendo doentes, coordenando equipes, diagnosticando. E enfrentando a impotência frente às mortes – às centenas de mortes que ele viu e sofreu em silêncio.
No campo do não dito, a gratidão. A sua dedicação integral como voluntário no Comitê de Enfrentamento da Covid-19 da Prefeitura de Belo Horizonte, gestão de Alexandre Kalil, foi um exemplo. Sua atuação salvou vidas.
Em O tempo sem tempo estão reunidas as mais interessantes crônicas publicadas durante este período. É um percurso histórico composto de lembranças que nos preparam para o futuro. Textos em que o bom astral está presente, sempre, apesar de tudo.
E o mais importante: prevaleceu a verdade, num tempo de tanta mentira, ao lado da Ciência, que tão bem se fez representar neste ser humano inigualável, repleto de compaixão e amor ao próximo.
Dr. Carlos Starling, Belo Horizonte lhe agradece.
E seus leitores também.