Carlos Starling

O TEMPO SEM TEMPO

53 crônicas da Pandemia​

As crônicas de Carlos Starling, gradualmente, converteram-se em marca do tempo sem tempo, do tempo espiralado de uma doença coletiva como a Covid-19, que teve a potencialidade de fazer tudo parar. (Lilia Schwarcz)

APRESENTAÇÃO

Quando menino, fui para o quarto escuro.
Castigo tremendo e apavorante para uma criança.

Não me lembro da travessura, mas não me esqueço o algoz. 
A falta de luz era apavorante, cruel e inexpugnável.
Pedagogia das trevas e do submundo da incontinência urinária.

Não havia saída para a escuridão. Só me restava esperar pela chegada da luz, que uma hora ou outra brotaria com o barulho da fechadura.

Com o tempo e os quartos escuros, fui descobrindo que a escuridão não era tão terrível assim. Ao fechar os olhos a imaginação diluía o medo e iluminava os sonhos.

Ao abri-los, fui percebendo que a luz penetrando pela fresta da janela, projetava na parede imagens de cabeça para baixo.

Lembrança fotográfica da descoberta do mundo ás avessas.

A escuridão seria uma constante, o limite da realidade.

Perdi o medo das trevas e aprendi a andar no escuro sem tropeçar nas sombras.

Com o tempo, claro, escuro, verdade, mentira, crueldade, perdão, viraram uma coisa só- vida.

Aprendemos a duras penas a encontrar caminhos a luz do dia. No escuro é preciso imaginação e resiliência.
Para enxerga um palmo a frente do nariz, precisamos mais de sensibilidade do que da visão.

O quarto escuro me ensinou de forma cruel e precoce a conviver com a solidão dos dias de uma vida inteira, descobrir beleza no deserto sem oásis e noites sem luar.

O pânico coletivo dos dias sombrios da pandemia se assemelham muito ao quarto escuro. O tempo sem tempo, expressão originada da genialidade de Lilia Schwarcz, permitiu que charlatões explorassem o breu e o hiato do desconhecimento científico e disseminassem mentiras, discórdia e a baba de Caim.

Hoje, com o trem aos poucos voltando aos trilhos, a população, farta e traumatizada, parece ignorar o risco ainda presente.
O vírus, alheio as neuroses humanas, segue seu curso natural. Mutante convicto, a cada volta ao mundo, conhece melhor nossas entranhas e fragilidades. Como um camaleão se transforma de tempos em tempos, dando a entender aos menos atentos, que agora é inofensivo.

Não vacinados, imunossuprimidos, idosos e crianças abaixo de 2 anos, continuam sendo suas vítimas prediletas.

As 53 crônicas desse livro, originalmente publicadas semanalmente no Jornal O Estado de Minas, são um relato histórico do que vivemos ao longo dos últimos anos. Da falta de luz quase absoluta á superação das trevas.

Em minha vida pandêmica destes 41 anos de formado, vivi o quarto escuro da epidemia de meningite dos anos 80, AIDS, Infecções Hospitalares, Superbactérias, Gripe Suína, Febre Amarela, Dengue e a Covid-19.

Todas essas pestes, foram aos poucos controladas pela luz da ciência que penetrando pela janela do tempo nos devolveu a esperança e a alegria de viver em sociedade, que apesar de desigual e injusta, segue democrática.

Essa não foi a primeira e nem será a última epidemia que enfrentaremos. Portanto, aprender a enfrentar a escuridão da ignorância é fundamental para não tropeçarmos nas sombras.

SOBRE O AUTOR

Carlos Starling

É médico infectologista e especialista em Medicina Preventiva e Social pela Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), formado em 1982. Atualmente é membro consultor científico da Sociedade Brasileira de Infectologia (SBI) e vice-presidente da Sociedade Mineira de Infectologia (SMI), além de membro e parceiro científico das mais prestigiosas sociedades e instituições científicas mundiais.

Ao longo das últimas décadas, atuou ativamente no controle das epidemias de AIDS, febre amarela, dengue e H1N1, sendo uma fonte para a imprensa nacional para esclarecimentos sobre estes e outros graves problemas de saúde pública. Além da área científica, é autor de um livro de poesias, Guardanapos (2016), e colunista do jornal Estado de Minas, versão on-line, desde 2019.

SOBRE O LIVRO

O TEMPO

SEM TEMPO

O olhar crítico e sensível destas crônicas de Starling para esse triênio com ares de século nos evoca, entre tantos férteis registros, a máxima do pensamento Gramsciano de que “o pessimismo da inteligência não deve abalar o otimismo da vontade”. Dor e derrota não precisam ser paralisantes; ao contrário. Em nós que tivemos o privilégio de cuidar e de conviver com os muitos que se foram, elas nos encorajam e iluminam, como uma epifania. 

Margareth Dalcolmo

Margareth Dalcolmo

As crônicas de Starling, com o tempo, converteram-se em marca do tempo sem tempo, do tempo espiralado de uma doença coletiva como a covid-19, que teve a potencialidade de fazer tudo parar. Atento, o médico anota e se pergunta sobre o momento histórico que nos foi dado viver, bem como registra seu espanto diante de um vírus que invadiu o planeta e transformou nossas vidas no espaço de uns poucos dias.

Lilia Schwarcz

Lilia Schwarcz

PALAVRAS CARINHOSAS DE QUEM LEU

Com relação ao Dr. Carlos Starling, o “Pavão” para os íntimos, me interessa falar do invisível, do não dito, dos silêncios. Fiz com ele, durante quase dois anos, de segunda a 6ª-feira, o #15mindepapo, no Instagram. Nunca foram só 15 minutos – maioria das vezes, 20 ou 30 minutos, informação de conteúdo para aquele tempo sofrido da pandemia.

Da ordem do invisível, as rondas diárias nos hospitais, atendendo doentes, coordenando equipes, diagnosticando. E enfrentando a impotência frente às mortes – às centenas de mortes que ele viu e sofreu em silêncio.

No campo do não dito, a gratidão. A sua dedicação integral como voluntário no Comitê de Enfrentamento da Covid-19 da Prefeitura de Belo Horizonte, gestão de Alexandre Kalil, foi um exemplo. Sua atuação salvou vidas.

Em O tempo sem tempo estão reunidas as mais interessantes crônicas publicadas durante este período. É um percurso histórico composto de lembranças que nos preparam para o futuro. Textos em que o bom astral está presente, sempre, apesar de tudo.

E o mais importante: prevaleceu a verdade, num tempo de tanta mentira, ao lado da Ciência, que tão bem se fez representar neste ser humano inigualável, repleto de compaixão e amor ao próximo.

Dr. Carlos Starling, Belo Horizonte lhe agradece.

E seus leitores também.

afonso-borges

Afonso Borges