Margareth Dalcolmo
Carlos Starling
O TEMPO SEM TEMPO
53 crônicas da Pandemia
As crônicas de Carlos Starling, gradualmente, converteram-se em marca do tempo sem tempo, do tempo espiralado de uma doença coletiva como a Covid-19, que teve a potencialidade de fazer tudo parar. (Lilia Schwarcz)
O TEMPO
SEM TEMPO
POR
Margareth Dalcolmo
Despertou-me um sentimento de cumplicidade, mais do que de testemunho, o convite para estas linhas, na medida em que o autor, meu colega e amigo Carlos Starling, e eu vivemos, em cidades diferentes, a dura experiência desse tempo pandêmico que parte as nossas vidas em antes e depois da covid-19, ou AC/DC, numa alusão temporal.
A trajetória pela qual passamos, compulsoriamente porquanto médicos, não nos deu escolha entre assistir os que adoeciam, estudar e nos informar sob a aluvião de publicações que rapidamente começaram a surgir, desde os primeiros estudos chineses, sobre a nova doença denominada pela OMS e causada por um novo agente etiológico, um coronavírus de alta capacidade de transmissão entre humanos, o SARS-CoV-2.
Sentimos de imediato que nossa capacidade de pessoas e serviços estaria desafiada ao extremo, e com isso fomos acumulando experiências, cicatrizes e excesso de luto. Somou-se, na realidade brasileira, uma tensão permanente da retórica oficial, que negava conceitos e práticas científicas e defendia tratamentos sem embasamento algum.
Sabíamos que a grande solução para a doença viral, aguda e de transmissão respiratória seria a vacina. Feito este que respondeu de modo extraordinário, pelo tempo em que levaram os testes e que em nada violaram o rigor às necessidades éticas e regulatórias. Se não foram equânimes ou justas em seu acesso no planeta, as vacinas salvaram milhões de vidas, nos dando a sensação de que, ao fim, venceu a ciência e o lado certo, despertando-nos a consciência de que essa não foi nem será a última pandemia de nossas gerações.
O olhar crítico e sensível destas crônicas de Starling para esse triênio com ares de século nos evoca, entre tantos férteis registros, a máxima do pensamento gramsciano de que “o pessimismo da inteligência não deve abalar o otimismo da vontade”. Dor e derrota não precisam ser paralisantes; ao contrário. Em nós que tivemos o privilégio de cuidar e de conviver com os muitos que se foram, elas nos encorajam e iluminam, como uma epifania.
Margareth Pretti Dalcolmo
SOBRE O AUTOR
Carlos Starling
É médico infectologista e especialista em Medicina Preventiva e Social pela Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), formado em 1982. Atualmente é membro consultor científico da Sociedade Brasileira de Infectologia (SBI) e vice-presidente da Sociedade Mineira de Infectologia (SMI), além de membro e parceiro científico das mais prestigiosas sociedades e instituições científicas mundiais.
Ao longo das últimas décadas, atuou ativamente no controle das epidemias de AIDS, febre amarela, dengue e H1N1, sendo uma fonte para a imprensa nacional para esclarecimentos sobre estes e outros graves problemas de saúde pública. Além da área científica, é autor de um livro de poesias, Guardanapos (2016), e colunista do jornal Estado de Minas, versão on-line, desde 2019.
PALAVRAS CARINHOSAS DE QUEM LEU
Com relação ao Dr. Carlos Starling, o “Pavão” para os íntimos, me interessa falar do invisível, do não dito, dos silêncios. Fiz com ele, durante quase dois anos, de segunda a 6ª-feira, o #15mindepapo, no Instagram. Nunca foram só 15 minutos – maioria das vezes, 20 ou 30 minutos, informação de conteúdo para aquele tempo sofrido da pandemia.
Da ordem do invisível, as rondas diárias nos hospitais, atendendo doentes, coordenando equipes, diagnosticando. E enfrentando a impotência frente às mortes – às centenas de mortes que ele viu e sofreu em silêncio.
No campo do não dito, a gratidão. A sua dedicação integral como voluntário no Comitê de Enfrentamento da Covid-19 da Prefeitura de Belo Horizonte, gestão de Alexandre Kalil, foi um exemplo. Sua atuação salvou vidas.
Em O tempo sem tempo estão reunidas as mais interessantes crônicas publicadas durante este período. É um percurso histórico composto de lembranças que nos preparam para o futuro. Textos em que o bom astral está presente, sempre, apesar de tudo.
E o mais importante: prevaleceu a verdade, num tempo de tanta mentira, ao lado da Ciência, que tão bem se fez representar neste ser humano inigualável, repleto de compaixão e amor ao próximo.
Dr. Carlos Starling, Belo Horizonte lhe agradece.
E seus leitores também.